A delegada aposentada da PCDF Mabel de Faria seguiu uma única linha de investigação, que acabou colocando Francisco Mairlon na cena do crime
A decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que, por unanimidade, inocentou e soltou Francisco Mairlon Barros Aguiar, que ficou 15 anos preso após ser apontado como um dos executores do Crime da 113 Sul, reacendeu o debate sobre a forma como a investigação acabou colocando Mairlon no caso.
Na época do crime, que vitimou o casal José e Maria Villela e a funcionária da família, Francisca Nascimento Silva, o caso passou pelas mãos de três delegadas.
Uma delas foi Mabel de Faria (foto em destaque), chefe da antiga divisão da Coordenação de Crimes Contra a Vida (Corvida) da Polícia Civil (PCDF). Quando a delegada assumiu o caso, sustentou uma única linha de investigação, que colocava quatro pessoas, além das vítimas, na cena do crime: três homens e uma mulher.
Durante o julgamento do Tribunal do Júri de Brasília, em 2019, Mabel chegou a reproduzir detalhes de um suposto diálogo que Adriana teria travado com o pai antes de ordenar a execução: “Nesse diálogo, José Guilherme fala: ‘Minha filha, você nisso’? E ela disse: ‘Eu te odeio! Vai para o inferno, seu velho’”.
Versões
A defesa de Francisco Mairlon apresentou, no STJ, um vídeo com depoimentos de Leonardo Campos Alves e Paulo Cardoso Santana, condenados que confessaram ser os executores do casal Villela e de Francisca Nascimento.
Nas imagens, Mabel aparece, junto a um homem, interrogando Paulo – réu confesso do triplo homicídio – logo após a sua prisão, em 2010. A ex-delegada começa perguntando o motivo que o levou a ir ao apartamento da 113 Sul.
Ele sustenta que foi “para roubar”. Em seguida, o homem que está no interrogatório tenta convencê-lo, de forma sutil, juntamente com a delegada, a mudar sua versão. “Você indo pra matar é 12 a 30 [anos de cadeia]. Você indo pra roubar e matar é de 20 a 30 [anos de cadeia]. Olha a matemática aí”, comenta. Na sequência, Mabel de Faria ressalta que “só vai depender” do que Paulo disser.
Mesmo assim, Paulo mantém a versão de que só ele e Leonardo estavam no apartamento, no momento do crime, e é retrucado pela delegada, que coloca a família de Paulo na história. “Só essa verdade é que vai ajudar você e seus familiares”, alerta Mabel, claramente forçando-o a dizer que Adriana e Francisco Mairlon também teriam participado do triplo assassinato.
Assustado, Paulo pergunta o porquê da família. “Porque estamos preocupados com a segurança deles. A gente sabe que a coisa é maior do que você está contando”, insiste Mabel. Daí para frente, tanto Paulo quanto Leonardo mudam suas versões em diferentes depoimentos, colocando Adriana Villela e Francisco Mairlon na cena do crime.
A condução das oitivas foi criticada pelos ministros do STJ. Og Fernandes disse que os vídeos são claros no sentido de que os depoimentos não tinham como objetivo a “busca da verdade, mas quase que uma coação moral”.
O Metrópoles tentou contato com a delegada Mabel de Faria, mas, até a publicação desta matéria, não houve retorno. O espaço segue aberto para esclarecimentos.
Até que, no ano passado, durante entrevista para a ONG Innocence Project, Paulo voltou atrás novamente e inocentou Francisco. “Tem muitos anos que eu quero uma oportunidade dessa que eu estou tendo hoje. Até parece que foi Deus que está trazendo isso para mim, para dar uma vitória para ele lá, porque ele merece. Porque ele está pagando por um crime que ele não cometeu”, disse.
Processo anulado
Os ministros votaram pela soltura imediata de Francisco Mairlon, que completaria 15 anos preso em novembro deste ano. Conforme a decisão da Sexta Turma, todo o processo foi anulado.
Se outras provas existirem, o Ministério Público poderá apresentar nova denúncia, de acordo com a Sexta Turma. Mas, a partir de agora, Francisco Mairlon não figura mais nem como acusado. Ou seja, ela foi inocentado.


















